Quem trabalha em criatividade passa a vida à procura de referências.
Guardamos campanhas, fazemos screenshots de anúncios, criamos pastas no Pinterest e enviamos links uns aos outros com a promessa de que “isto pode dar uma ideia para qualquer coisa”.
Mas, muitas vezes, as melhores referências não estão dentro da nossa indústria.
Estão espalhadas pelos sítios mais improváveis: num filme, numa série, num livro, numa conversa ou até num detalhe que à partida parecia insignificante.
Desta vez, vamos falar de séries e como elas podem não só ensinar-nos a escrever melhor, a filmar melhor ou a construir personagens mais interessantes, mas também a percebermos melhor as pessoas e as suas motivações.
Esta não é uma lista das melhores séries de sempre.
É uma seleção de séries que ajudam qualquer criativo a pensar melhor sobre comportamento humano, poder, cultura, criatividade e storytelling.
Mad Men
As pessoas não compram produtos. Compram significado.
Há poucas séries tão importantes para quem trabalha em comunicação como Mad Men.
À primeira vista, uma série sobre publicidade nos anos 60. Na prática, uma aula sobre desejo humano. Sobre aquilo que leva uma pessoa a escolher uma marca em detrimento de outra. Sobre como transformamos produtos banais em símbolos carregados de significado.
Don Draper percebe uma coisa que continua a ser verdade décadas depois: as pessoas raramente compram aquilo que um produto faz. Compram aquilo que esse produto diz sobre elas.
É por isso que Mad Men continua tão atual. Porque nos recorda que o melhor marketing não nasce de características técnicas nem de listas de benefícios. Nasce da capacidade de contar uma história na qual as pessoas se querem ver refletidas.
Succession parece uma série sobre uma família milionária constantemente em guerra., mas basta alguns episódios para percebermos que o verdadeiro tema nunca foi o dinheiro, mas sim o poder. Quem fala primeiro. Quem domina uma reunião. Quem controla uma crise. Quem consegue impor a sua versão dos acontecimentos.
Ao longo da série, percebemos que as decisões mais importantes raramente são tomadas através da força. São tomadas através da narrativa. Através da forma como uma situação é enquadrada e apresentada aos outros.
Para quem trabalha em branding, esta é uma aprendizagem valiosa. As marcas também disputam narrativas todos os dias. Não ganham necessariamente porque têm o melhor produto. Ganham porque conseguem ocupar um espaço claro na cabeça das pessoas.
Succession
O poder vive na narrativa.
Severance
As melhores ideias começam com uma boa pergunta.
E se pudesses separar completamente a tua vida pessoal da tua vida profissional?
É a partir desta premissa aparentemente simples que nasce uma das séries mais originais dos últimos anos. Severance constrói um universo inteiro a partir de uma única ideia, explorando todas as suas implicações com um rigor quase obsessivo.
Para quem trabalha em criatividade, a série deixa uma reflexão importante. Muitas vezes procuramos inspiração em dezenas de referências, tendências e estímulos diferentes, quando as ideias mais fortes costumam nascer de algo muito mais simples: uma pergunta capaz de nos fazer olhar para o mundo de outra forma.
Antes do design, da produção, da estratégia ou da execução, existe sempre uma ideia. E as melhores ideias têm uma característica em comum: continuam a gerar novas perguntas muito depois de terem sido apresentadas.
Black Mirror tornou-se conhecida por antecipar cenários tecnológicos que parecem cada vez menos ficção científica.
Mas reduzir a série à tecnologia é perder o essencial, porque o verdadeiro tema sempre foi o comportamento humano.
A necessidade de validação. A obsessão por reconhecimento. O medo de exclusão. A procura constante por atenção.
Cada episódio funciona como uma experiência social que exagera uma tendência já existente para nos mostrar onde ela pode chegar.
Para quem trabalha em comunicação é um exercício particularmente interessante, porque lembra-nos que as plataformas mudam, os formatos evoluem e os algoritmos são constantemente atualizados. Mas as motivações humanas continuam surpreendentemente semelhantes.
Black Mirror
A tecnologia muda. As pessoas nem por isso.
The Studio
A criatividade acontece dentro de restrições.
Existe uma ideia romântica sobre a criatividade: a de que as melhores ideias surgem em momentos de inspiração, longe de prazos, reuniões e folhas de Excel.
The Studio desmonta essa visão de forma brilhante. Ao mergulhar nos bastidores da indústria do entretenimento, a série expõe o equilíbrio frágil entre visão criativa, interesses comerciais, egos, expectativas e pressão constante.
O resultado é uma das representações mais honestas do trabalho criativo dos últimos anos. Porque, na realidade, criar raramente acontece em condições perfeitas. Implica negociar, adaptar, defender ideias e tomar decisões difíceis quando não existe uma resposta certa.
E talvez seja precisamente essa a maior lição da série: a criatividade não nasce quando tudo é possível. Muitas vezes, nasce quando somos obrigados a encontrar soluções dentro dos limites que temos.
O que todas estas séries têm em comum?
À primeira vista, têm pouco em comum. Falam de publicidade, impérios mediáticos, experiências corporativas, tecnologia ou indústria cinematográfica.
Mas todas partem da mesma obsessão: compreender pessoas.
As suas contradições. As suas ambições. Os seus medos. A forma como constroem identidade, procuram validação ou tentam encontrar o seu lugar no mundo.
E talvez seja precisamente aí que reside o seu valor para quem trabalha em criatividade. Porque as ideias mais relevantes raramente nascem da observação de outras campanhas. Nascem da observação da vida, das pessoas e das histórias que contamos sobre nós próprios.
No fim das contas, quer estejamos a construir uma marca, a desenvolver uma estratégia ou a escrever um guião, estamos sempre a tentar fazer a mesma coisa:
contar uma história que mereça a atenção de alguém.